sábado, 13 de agosto de 2011

Caminhada sentimental na rota do Rio Araguaia GO

Há muitos anos ouvi falar de um sonho ousado, de uma loucura realizada por meu irmão DONCA , um tabirense pouco conhecido em sua cidade de nascimento a não ser através do livro “ Meus caminhos, meu viver”, lançado em Tabira há mais de 15 anos.
 Na minha cabeça, era difícil encaixar aquela história sem precedentes, principalmente do lado de cá do Pajeú. Acontece que mesmo sem ser de Goiás, eu sabia de tudo o que aconteceu  desde a primeira vez que Donca fez sozinho o percurso Goiânia – Aruanã ,  numa distância de 330km, durante cinco dias e  passando por várias cidades até às margens do Rio Araguaia sempre realizando um momento ecológico por onde passava..  O que mais me apaixonava e até me espantava era saber que a caminhada tinha o objetivo principal de preservar o meio ambiente, alertar a população para a defesa do Rio Araguaia e cuidar com mais  amor das belezas do Cerrado. Hoje, é bem mais fácil falar de preservação, mas naquela época (1993- 2003) tudo parecia exagerado e perigoso diante dos grandes fazendeiros e criadores de gado da região.
Agora, em julho 2011, saí de Tabira com minha irmã Socorro para assistir de perto a XX Caminhada Ecológica, passando por 11 municípios e pernoite em  4 cidades até a chegada em Aruanã, onde os atletas, 27 heróis, concluem a caminhada com um banho reconfortante nas águas do Araguaia, como fez Donca em sua primeira caminhada solitária.
Meu irmão, o visionário, o louco, o sonhador, o escritor e poeta fez sua última jornada na direção de Deus há oito anos. De lá pra cá são muitas e sinceras as homenagens  com a presença de Verônica (esposa de Donca) dos filhos e netos e dos muitos companheiros de tantas caminhadas e corridas em Goiás e outros estados do país.
Ainda estou tentando processar as idéias... O evento me deixou bastante emocionada ao ver um telão no Palacio das Esmeraldas durante o jantar com o representante do Governador, secretários, reitores de universidades,  jornal O POPULAR, rede de TV, alunos e professores de várias faculdades, os 27  corredores selecionados para a XX Caminhada Ecológica e nós, familiares de Antonio Firmino de Lima- o Donca.
De tudo que vi no palácio e durante as conversas sobre o “pioneiro”, de todas as frases retiradas dos 4 livros de Donca, de todas as lágrimas de emoção, guardei comigo a mensagem da Organização Jaime Câmara GO, após a morte do meu irmão:
“ Alguns homens quando morrem não morrem viram sementes”
.........
Donca deve estar feliz em saber que esta corrida é única na América Latina e talvez no mundo,  não só pela distância percorrida mas, e principalmente,  pelos seus objetivos em defesa da Ecologia;   pois em cada cidade do percurso são plantadas árvores e realizadas outras ações em favor do Cerrado Goiano.
Nessa caminhada sentimental, tive a felicidade de rever meus familiares, (que saudades!)e a alegria de abraçar o Rio Araguaia, e até deslizar em suas águas , e nadar um pouquinho ,que o rio não é brincadeira... assim me dizia  a querida sobrinha Vanilde.
Da casa de campo de Francisca, outra sobrinha e alegre anfitriã, via o Araguaia ainda potente, majestoso, cheio de praias que mudam de lugar, muitos acampamentos,  nativos, pássaros e o silêncio grandioso da Natureza que pede passagem.
Que Deus guarde o Araguaia. Que o proteja de mãos assassinas. Deixem que suas águas continuem acalentando o sono eterno do meu irmão. Donca não exigiu glórias, queria apenas atitudes de respeito e de preservação da natureza. E é por isso que o Jornal O POPULAR de Goiânia GO acompanhou durante cinco dias o evento, fazendo uma brilhante divulgação como sempre fez desde o início das referidas caminhadas.
Vejamos aqui algumas manchetes do O POPULAR, no período 19 a 25 /07/2011:
“Eles estão a um passo de fazerem história: Esses são os heróis da XX Caminhada Ecológica” “21/07/2011
“Caminhada Ecológica, que no início parecia uma idéia absurda, hoje é a maior do gênero na América Latina” (Ssuplemento do Jornal O POPULAR, de 19/07/2011)
“DOM de semear e ousar:Donca queria fazer algo para que as futuras gerações desfrutassem das belezas do rio Araguaia e Cerrado”
“A gente divide o coração em dois. Um em cada pé. ( Prefeitura de Itauçu) por João Batista
“Eles chegam, voam aqui, ali e se vão, como se fossem beija-flores”. Maria de URU
“É tempo de férias saudáveis: Unimed na Caminhada Ecológica”
“ Eles escreveram  seus nomes na história da preservação da natureza” (25/07/2011)
“As belezas naturais de FAINA vão se encantar com os heróis da natureza.” (22/07/2011)
“ Atletas são recebidos e homenageados  pela madrinha Maria de URU entre Itaberaí e Cidade de Goiás”
“Evento ganha um monumento em Aruanã” (24/07/2011)
“ Nas águas do Araguaia termina mais uma jornada (24/07/2011)

De Tabira, o poeta Dedé monteiro enviou a seguinte estrofe:

“Donca era tão atual,
Tão puro, tão sonhador,
Que tornou-se o precursor
Desse evento especial.
Da moto-serra imoral
Só distância ele queria.
Inflava o peito e dizia
Quando punha os pés na estrada:
Ninguém perde a caminhada
Nos passos da Ecologia.’’
                                      Fiz seguindo o mesmo mote, esta estrofe:
Araguaia foi paixão,
Goiânia – tua cidade.
Teu lema _ simplicidade.
Teu grito, mais que um clarão.
Pela voz do coração,
Pela mata preservada ,
Hoje eu sigo tua estrada
Nesse chão que contagia:
Nos passos da Ecologia
Ninguém perde a caminhada!


Depois da caminhada, e já de volta a Tabira , pensei no rio Capibaribe tão lindo e tão sofrido. Senti saudades do nosso Rio Pajeú tão importante numa terra ressequida. Mágico pela surpresa de aparecer após as primeiras enxurradas...  Rio Feiticeiro, rio dos poetas, que posso eu fazer por ele? ..  Amor não me falta. Precisamos de muitas mãos, de corações que pulsam pela defesa desse presente que Deus nos deu.
 Fale, grite, defenda o Rio Pajeú assim com fez Diomedes Mariano no seu poema  “O rio ainda está vivo”.

 Fotos do passeio e  da XX Caminhada Ecologíca Goiânia - Aruanã 2011



sexta-feira, 15 de julho de 2011

Depois que a chuva termina

 (Paráfrase do poema “Depois que a feira termina”, de Dedé Monteiro)

 Depois que a chuva termina

Esbraveja o carroceiro
Por essa chuva tardia.
A mulher de Zacaria
Que estava lá no terreiro,
Escorrega no atoleiro
E grita: “Traz a botina,
Quanto é triste a minha sina!”
Foi se esconder na cozinha;
E só sai de tardezinha
Depois que a chuva termina.


A mãe diz: “chegou a hora
Do teu transporte escolar.
Sem mesmo a chuva passar,
Veste a roupa sem demora,
Pega a bolsa e vai-te embora.”
O motorista buzina,
Mas no lamaçal da esquina,
Nem pra frente e nem pra trás...
E a mãe só se sente em paz
Depois que a chuva termina


No burburinho da feira,
Sobe gente e desce gente,
Embora o sol seja quente,
Continua a lamaceira.
Quem compra sai na carreira,
Quem vende espera a neblina.
Nessa “vida Severina”
Abre os braços numa prece,
E pra Deus só agradece
Depois que a chuva termina.

Um rapaz c’a namorada,
Moça bonita e manhosa,
Recebe dele uma rosa
Debaixo de uma sacada.
De uma nuvem escancarada
Lá vem chuva grossa ou fina.
Mas o casal faz cortina
 De beijos à flor das águas...
E o vento carrega as mágoas
Depois que a chuva termina.
 



Ouço o sino bem cedinho
Lá na torre da igreja,
Tocando pra quem deseja
Palmilhar o bom caminho.
Sacristão pisa mansinho,
Vigário veste a batina,
Mas pra santa pequenina,
Seja noite ou seja dia,
Só repete Ave-Maria
Depois que a chuva termina.

“Vai ter circo na cidade”,
O carro passa avisando.
É menino saltitando,
Velho esquecendo a idade...
Que festa pra mocidade!
Acende-se a lamparina
Do circo lá na colina.
Vem trovão apaga a luz.
E o povo diz;” credo em cruz”
Depois que  chuva termina.

                     Dulce Lima, julho 2011


terça-feira, 5 de julho de 2011

O PRIMEIRO SÃO JOÃO DO PILATES

Uma festa de São João genuina, isto é, sem mistura de novidades modernosas, tem cara de sítio ou fazenda, terreiro molhado, estrada de terra batida, fogueira acesa e a meninada viajando na fantasia das chuvinhas, rojões, traques e vulcões.
Ali, nada é artificial, desde a comida(huum... que gostosura), o cheiro do mato,  o forró pé-de-serra e o abraço dos amigos na alegria dos festejos juninos na zona rural de Tabira.
Na grande e acolhedora casa de campo, os anfitriões Dr. Ubirajara, Nevinha Jucá, a fisioterapeuta Dra. Socorro( Cocoia ) Evandro e Rodrigo nos receberam com afeto e nos deixaram à vontade para a festança que aconteceu no dia 17/06/2011.
A turma do PILATES compareceu com entusiasmo,  provando que mobilidade física é questão de força de vontade, persistência e  confiança no trabalho  serio de um bom fisioterapeuta.
Depois das comedorias juninas, caldinhos fumegantes, churrasco  e salgadinhos diversos, a Sra. Ozita anuncia o casamento matuto com noiva eufórica (Nádia Soares), noivo superansioso( Ângela, lembrando o saudoso Prof. João Gabriel), padrinhos atrapalhados e um padre ( o comerciante Pedro Bezerra) muito consciente na missão de abençoar os noivos como símbolo cultural de resistência dos folguedos mais puros do sertão nordestino.
A noite prossegue animada com um jantar regional e outras iguarias feitas pela também aluna do Pilates e mestra gastronômica de nossa cidade- Albanete- que ao lado do esposo distribuiam ambos  sorrisos e simpatia.
Num certo momento da festa, os convidados se "axadrezaram" , formaram os pares e dançaram a menos ensaiada quadrilha do São João tabirense.
Mas  ainda faltava a presença de alguém especial quando Ozita avisa a Dani ( funcionária e amiga do Pilates) para nos apresentar o esquentado  "Joãozinho",  cavalheiro que arrebatou todas as damas para  um forró fungado no meio do salão.
Não fiquei até o final, porém , através do que me relataram,  a festança foi até às 04 da matina com muita animação , forró de Zeira e chuva que molha e alegra o sertão.

























quarta-feira, 22 de junho de 2011

Um balão remendado



Do alpendre da casa, ouvíamos os fogos de artifício na cidadezinha próxima, anunciando o final das novenas do mês de maio.
Enquanto os adultos contavam fatos de  suas vidas esquecidas no sertão do Pajeú, eu me deliciava contando as estrelas:
_ Mãe, já contei mais de cem estrelas...
_Deixa disso, menina. Vais ficar com verrugas.
De repente, todos nós ficamos mudos de espanto. Alguma coisa vinha em nossa direção. O que seria? Estrela, disco-voador, “visagem”? Nada mais que um balão. Descendo! Vagarosamente.
Meu irmão, ágil e decidido, corre a tempo de segurar o balão, apagar o pavio e trazê-lo como um troféu, orgulhoso de tal façanha.
Penduramos o balão nos caibros rústicos da sala. Arranjamos papel e o remendamos de mil cores, indiferentes à estética. Afinal, o que contava mesmo era o balão.
Na noite de S. Joâo, com fogueira, cantigas de roda , e ao som da sanfona, o  nosso balão subia pela segunda vez para competir com as estrelas.
Ainda hoje, passados os anos, os balões exercem uma estranha magia sobre minha pessoa. E como aquele, a minha vida está cheia de remendos. Coloridos alguns. Outros sem cor. Já não conto as estrelas. Já não tenho balão, e nem sei onde se escondeu S. João...
Noite fria de inverno.
Céu escuro. Sem estrelas.
Os balões fora proibidos! A felicidade também...

Esta crônica ganhou hoje  a sua maioridade ( 21 anos). Foi escrita em junho de 1989. O acontecimento é real e povoa o imaginário da blogueira de 72 anos.
Fica aqui a minha homenagem para a maior e mais significativa festa do povo nordestino. Que haja sempre a alegria espontânea das festas juninas para as famílias sertanejas.
 Tabira, 22/06/2011, Dulce Lima

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Um passeio "bonito"

No dia 28/05, conforme havíamos planejado, lá fomos nós, eu Mônica, Mirna, Mariana, Diego. Rafael, João Guilherme e Socorro( irmã) rumo à cidade de Bonito PE, precisamente para o HOTEL FAZENDA  ENGENHO PEDRA DO RODEADOURO – um lugar incrível, bem no sopé da lendária Pedra do Rodeadouro, distante 08km do centro da cidade.

Para quem ainda não sabe, a cidade de Bonito (com mais de 200 anos) recebeu há poucos dias o título de Cidade das Águas por ter além da  quantidade, as mais belas cachoeiras de Pernambuco.
Para  minha grande surpresa,  o dono do hotel-fazenda é um  tabirense, primo de Paulo Cordeiro e da poeta Verônica Sobral. O Sr. Pedro Farias é um sertanejo simples, alegre, conversador e  entusiasta do grande projeto que desenvolve em sua fazenda: preservar e  ampliar a área da mata atlântica na faixa de transição entre  o agreste e a zona da mata; provando que é possível e salutar viver no campo e usar os bens da Natureza com  harmonia e sustentabilidade.
O Hotel possui uma boa estrutura  com vários chalés e  outros em construção para atender os turistas que chegam de  Pernambuco e Estados vizinhos.
Vejamos um pouco do que o hotel oferece: ar puro, paisagem sempre verde, fartura de frutas, verduras, boa comida, área coberta de recreação, brinquedos infantis, e uma decoração bem nordestina.. Vale lembrar o bom atendimento dos  funcionários, pessoal da cozinha e dos mais de 20 trabalhadores do campo. E tem mais: passeios a pé ou a cavalo para apreciar as plantações , os banhos de piscinas e de cachoeiras, passeios de pau-de –arara, rapel, pague e pesque, leite no curral e mais ... muito mais. Sem contar a paisagem luxuriante de serras, riachos, fontes permanentes, uma chuvinha fina e passageira e a lua brejeira tentando se esconder por trás da misteriosa Serra do Rodeadouro.



Quantas vezes não gastamos tanto com  festas que depois só nos deixam um grande vazio, fora as despesas com roupa, sapato, salão de beleza, o transporte, as bebidas e até o pagamento de uma babá para cuidar das crianças  naquela noite .
Não digo de um modo geral , mas viajar é uma questão de prioridade; e não somente de condições financeiras.
A cidade de Bonito está um pouco descaracterizada, embora ainda se possa ver alguns prédios antigos preservados.




As estradas, como na maioria dos municípios do interior,  estão em estado lamentável o que dificulta a expansão do turismo e o escoamento da produção agrícola, pois Bonito é o maior produtor de batata doce de Pernambuco e o 2º em inhame.
De volta, não resistimos a uma parada a fim de observar mais de perto a diferente e linda construção à beira do caminho. Não havia ninguém para nos informar sobre um palácio encantado no silêncio interrogativo de uma tarde de domingo.


Mais fotos do passeio: